Três décadas de um movimento socioambiental.
A Meta 2034 não começa agora. Ela coroa um processo que nasceu da Reforma Sanitária brasileira, desceu 800 km de rio em caiaque, consolidou política de Estado e enraizou-se como mentalidade pública em Minas Gerais. O núcleo desse movimento foi a Faculdade de Medicina — UFMG, na disciplina Internato em Saúde Coletiva, cujo nome fantasia é Internato Rural — comumente visto como Internato de Saúde Pública Rural / SUS.
Do Internato Rural ao Projeto Manuelzão.
Na década de 1990, o Internato Rural da UFMG — disciplina médica heterodoxa que enviava estudantes por três meses a rincões rurais de Minas — tornou-se um dos laboratórios brasileiros da Reforma Sanitária.
Dessa linhagem, pioneira no país, brotou o Projeto Manuelzão: saúde coletiva focada em realocar a prática médica com visão transdisciplinar, alterando os determinantes socioeconômico-ambientais como fundamento de uma teoria ecossistêmica da vida e da saúde na Terra.
Em 7 de janeiro de 1997, o Projeto Manuelzão / UFMG foi lançado publicamente, com a presença de docentes, discentes, do diretor da Faculdade de Medicina Edson Correia e do próprio Manuelzão Nardi. A idealização inicial coube a Apolo Heringer Lisboa — mas o projeto, desde o primeiro dia, é obra coletiva da universidade e da sociedade civil mineira.
A Expedição por Água e Terra.
Entre 12 de setembro e 12 de outubro de 2003, por 30 dias ininterruptos, uma equipe desceu em caiaques os 800 km de meandros entre a Cachoeira das Andorinhas em Ouro Preto e a Barra do Guaicuí no Rio São Francisco.
A repercussão foi imensa na sociedade, na mídia e na maneira de enxergar a história de Minas pelo espelho d'água. Foi nesta expedição que se confirmou o conceito de Epicentro da degradação — os navegadores precisaram usar máscaras profissionais e roupas especiais ao atravessar o trecho entre as fozes dos ribeirões Arrudas, Onça e Mata.
A ideia da Meta 2010 nasceu em Rio Acima, durante concentração popular na ponte da cidade, com a presença do Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo.
Meta 2010: uma vitória histórica.
Graças à repercussão da Expedição e à ousadia do pedido de audiência com o então governador Aécio Neves, aliado do prefeito Fernando Pimentel e do futuro prefeito Márcio Lacerda, o Projeto Manuelzão conquistou o apoio do conjunto da sociedade e de toda a máquina estadual.
O Estado e diversos prefeitos — incluindo o de Belo Horizonte e o de Santo Hipólito (município que sediou o histórico evento) — reuniram-se dentro do Rio das Velhas.
de melhoria estimada nas condições da bacia durante a Meta 2010.
de meandros descidos em caiaque na Expedição 2003.
Pesquisas de biomonitoramento da UFMG e dados informativos da SEMAD, COPASA e CBH Velhas atestaram uma melhoria das condições da bacia estimada em 60%. Não fosse isso, a situação do rio hoje poderia estar irreversivelmente deteriorada. Histórico do Projeto Manuelzão
O lançamento do Manifesto Meta 2034.
Em 2024, o Projeto Manuelzão publica o manifesto “Para a volta do peixe à Bacia do Rio das Velhas”, fixando o horizonte de 2034 para a renaturalização da bacia. O documento estampa na capa o Dourado (Salminus franciscanus), peixe-símbolo e indicador biológico do rio vivo — e consolida a tese do Epicentro em Classe Dois como estratégia macro e sistêmica.
A escolha do horizonte 2034 dialoga diretamente com o Marco Regulatório do Saneamento (Lei 14.026/2020, prazo nacional de 2033) e com a Deliberação Copam–CERH/MG 08/2022. É a versão mais ambiciosa e integrada do movimento desde a Meta 2010 — necessária, inadiável, legal e plenamente exequível.
“Para a volta do peixe à Bacia do Rio das Velhas”
A peça que estabeleceu o Dourado como símbolo do movimento. A arte do peixe é de Paulo Henrique Fiote, e acompanha hoje toda a comunicação da Meta 2034.
O manifesto formaliza a tese do Epicentro, consolida a linhagem Manuelzão → Expedição 2003 → Meta 2010 e projeta o horizonte 2034.
Antever a volta dos peixes a rios renaturalizados é antever o restabelecimento dos serviços ambientais que a bacia pode prestar: alimento, renda, navegação, lazer, dessedentação. Academicamente falando, trata-se de um projeto de doutoramento a céu aberto — integrando graduação, pesquisa, extensão, análise estratégica e mobilização social, de forma transsetorial e transdisciplinar.
O prazo 2034 alinha-se ao Marco Regulatório do Saneamento (Lei 14.026/2020, prazo nacional de 2033 para universalização) e à Deliberação Normativa Conjunta Copam–CERH/MG 08/2022, que exige metas obrigatórias, intermediárias e finais de qualidade da água.
Três contribuições que a sociedade civil construiu.
Carta de Princípios do CBH SF
Base da visão ecossistêmica de bacia que se espalhou por todo o país.
Declaração de Princípios do CBH Velhas
Marco na história do comitê, aprovado em plenária durante a Meta 2010.
Subcomitês por afluentes
Descentralização da gestão hidrográfica com proximidade às comunidades ribeirinhas.
A Meta 2034 no território.
Encontros, articulações e caminhadas: a Meta não se constrói no gabinete. Ela se faz a cada subcomitê, plantio, reunião municipal e expedição ao rio.
A voz que chega à sociedade.
Três décadas de mobilização, registradas por veículos como TV UFMG, Estado de Minas, Rede Globo, Folha de S.Paulo e Mongabay.
Nenhuma outra bacia do Brasil está tão preparada.
Esse acúmulo técnico, científico, subjetivo e político faz parte do diagnóstico. É ele que sustenta a viabilidade da Meta 2034.
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