Foi no último dia do Congresso Brasileiro de Ictiologia, em São Leopoldo (RS), que pedi um minuto de atenção do Dr. Robert Mason Hughes. Era janeiro de 2001 e eu não imaginava a dimensão da parceria que viria a ser construída. Naquele breve momento, tentei explicar rapidamente o Projeto Manuelzão (PMz), nascido na UFMG em 1997, com objetivo de promover a Saúde, Cidadania e Meio Ambiente na bacia do rio das Velhas. O PMz usa o lema "A Volta do Peixe ao Rio" como o bioindicador dos resultados das diversas ações propostas na bacia.

Nossas conversas continuaram por e-mail, e até algumas ligações telefônicas internacionais, e ele ficando cada vez mais impressionado com a relevância do Projeto Manuelzão. E o diferencial era a inclusão do componente da saúde humana em um projeto de melhoria da qualidade ambiental. Não perdemos a primeira oportunidade de ele estar no Brasil (em 2003 para o congresso da ASIH — American Society of Ichthyologists and Herpetologists) em Manaus e formalizamos um convite para viajar pela bacia do rio das Velhas. Percorremos locais degradados na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), trechos da calha, afluentes alterados e também em bom estado de conservação, como o rio Cipó. Todo esse esforço foi uma tentativa para incorporar a metodologia de Integridade Biótica da Agência Ambiental dos Estados Unidos (US-EPA) ao biomonitoramento que já fazíamos no rio das Velhas, desde 1999. Ironicamente, até hoje não conseguimos implantá-lo…, mas ainda não perdemos a esperança!

Em um evento internacional promovido pelo PMz no auditório da Reitoria da UFMG, Bob Hughes e Phil Kaufmann foram os convidados internacionais, trazendo toda a bagagem de conhecimento da US-EPA para pesquisadores e estudantes universitários do Brasil. Naquela oportunidade, a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) vislumbrou a possibilidade de aplicar o conhecimento nas avaliações utilizando a Integridade Biótica em reservatórios da empresa. O que era apenas um sonho inicial tornou-se realidade pelo financiamento da Cemig, com quatro grandes projetos nos rios São Francisco, Grande, Araguari, Paranaíba e Pandeiros.

Através desse primeiro projeto, e outros posteriores, Bob estreitou relações em Minas Gerais com a UFMG, UFLA, PUC-Minas, CEFET, além das relações que ele já tinha no Brasil (Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás) e outras que vieram em seguida como no Pará, Paraná e Paraíba. Foram diversas participações em congressos nacionais e internacionais no Brasil, workshops, disciplinas de pós-graduação, cursos, treinamentos de campo, etc. Esteve aqui no Brasil por diversas vezes, seja através dos financiamentos de pesquisa com recursos nacionais, ou mesmo pelo seu reconhecido mérito internacional. Por exemplo, ele já esteve aqui por 3 ocasiões através de bolsas da Comissão Fulbright, que promove o intercâmbio entre os EUA e outros países com a finalidade de compartilhar conhecimento e aprimorar talentos. Bob chegou a morar em três oportunidades por vários meses em Belo Horizonte, Lavras e em Belém. De alunos de graduação a professores em topo de carreira e de pesquisadores a técnicos de empresas, tratava todos com a mesma atenção, carinho e humildade, passando o máximo de conhecimento possível.

Historicamente, diante de diversos registros de estrangeiros no Brasil, desde a época dos naturalistas, guardadas as diferenças entre os séculos, ao contrário de outros cientistas que vieram ao Brasil, Bob veio para compartilhar toda sua experiência mundialmente reconhecida, como um parceiro generoso. E os frutos desta parceria de 25 anos renderam dezenas de teses de doutorado, dissertações de mestrado, monografias de fim de curso, capítulos de livro e mais de uma centena de artigos científicos publicados em revistas especializadas internacionais em parceria com brasileiros. Ele incentivou a participação de colegas em eventos tanto aqui como no exterior. Recebeu brasileiros nos EUA em missões científicas e como coorientador de bolsistas sanduíche. Mais do que isso, criou eternos laços de amizade e respeito com vários outros brasileiros, em diversas regiões do Brasil.

Segundo nos contou o amigo comum Phil Kaufmann, que foi parceiro do Bob na US-EPA por 39 anos:

Sua paixão pela ciência aquática começou com suas explorações de um lago local durante a infância em Flint (Michigan). Bob foi uma das pessoas mais talentosas, dedicadas e incansáveis que conheci. Ele foi tanto um líder conceitual quanto um pesquisador prático que desfrutou de seus muitos anos de trabalho de campo. Ele escreveu ou foi coautor de mais de 270 artigos em periódicos, muitas dessas publicações descrevem pesquisas no desenvolvimento e teste de métodos de campo e Índices de Integridade Biótica.

Estes estudos visam quantificar a condição do ecossistema aquático com base em peixes, macroinvertebrados aquáticos, algas, aves ribeirinhas, habitat físico e características da paisagem. Ainda segundo o Phil:

Os momentos mais memoráveis que passei com Bob tenham sido no Brasil, onde o desenvolvimento da terra e da água continua em rota de colisão com a incrível biodiversidade de água doce. A partir de 2002, Bob e eu nos envolvemos cada vez mais com cientistas brasileiros talentosos e altamente motivados. Com base em nossa experiência em levantamentos aquáticos da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), ajudamos esses cientistas a desenvolver, implementar e interpretar levantamentos de recursos hídricos e pesquisas sobre questões ambientais no Brasil, incluindo levantamentos de rios no Cerrado, na Mata Atlântica e na bacia Amazônica.

Batalhava há alguns anos contra um câncer na bexiga que, após um tratamento inicial, foi controlado. Durante os anos que estava em tratamento, Bob veio ao Brasil por três vezes, reforçando seu interesse e comprometimento com a criação de uma sólida base científica no campo da Integridade Biótica, trabalhando em diversos estados e bacias hidrográficas brasileiras. Mas a doença contra a qual lutava bravamente voltou mais agressiva e já era insuportável. Na noite do dia 23 de junho de 2025, perdemos esse grande amigo e parceiro científico. Ele usou a Lei da Morte Digna do estado do Oregon, onde morava (Death with Dignity Act — DWDA), e encerrou seu sofrimento e dor.

Nos seus dias finais de vida, e já sem esperanças de poder retornar à vida normal, em um gesto de inigualável generosidade, disparou pela internet um pedido de apoio dos seus amigos em sua honra, para angariar fundos para o Projeto Manuelzão. Os recursos arrecadados foram repassados da família para mim e estão sendo responsavelmente aplicados no apoio da Meta 2034: para a volta do peixe à bacia do rio das Velhas.

Esse é o legado de uma pessoa que ensinou, aprendeu e ajudou a construir uma nova realidade na avaliação ambiental em Minas Gerais e no Brasil. Minha certeza disso foi quando, em 2024, aos 79 anos, ele me disse: "Carlos, você mudou a minha vida para sempre!".